É comum o médico passar boa parte da consulta olhando para a tela ou para o papel, não para o paciente. Preencher prontuário durante o atendimento virou parte esperada da rotina, mas o custo disso raramente é discutido.
Em consultas de quinze a vinte minutos, o tempo gasto digitando ou escrevendo histórico, queixa e conduta pode consumir uma fração relevante do horário reservado para o paciente. O que sobra é menos tempo de escuta.
A causa costuma estar no formato: registro clínico e atendimento tratados como uma única tarefa, feita ao mesmo tempo, pela mesma pessoa, quando na verdade são duas atividades com naturezas diferentes. Uma pede presença, a outra pede precisão documental.
Um jeito simples de visualizar o problema: imagine dividir a consulta em blocos de um minuto. Em boa parte das especialidades, um número desproporcional desses blocos vai para o teclado ou para o papel, não para o exame, a pergunta de acompanhamento ou o esclarecimento de dúvida.
Transcrição da consulta, com o prontuário sendo estruturado depois a partir da conversa, muda essa ordem: o profissional atende primeiro, o registro acontece em paralelo sem exigir digitação simultânea.
O ganho não aparece só no tempo economizado. Aparece na qualidade da interação: mais contato visual, menos interrupção, uma consulta que parece conversa e não preenchimento de formulário em tempo real.
Existe também um efeito colateral pouco discutido: prontuário preenchido com pressa, no meio da consulta, tende a ser mais raso do que um prontuário estruturado com calma logo depois, a partir do que foi efetivamente dito e observado.
Clínicas que mediram esse tempo antes e depois de mudar o formato de registro costumam encontrar uma diferença maior do que esperavam, o suficiente para caber mais um paciente na agenda do dia sem esticar o horário de ninguém, e sem sacrificar a qualidade do registro clínico.
